Início | Blog
A estrutura patriarcal tem sido responsável por diversas perdas sociais. E este sistema de dominação-exploração é um dos mais antigos, datando em cerca de seis milênios, como descreve Saffioti (1987). Durante a pandemia, não foi diferente, a opressão às mulheres se evidenciou, já que, elas são, na maioria das vezes, atingidas em maior intensidade devido à exploração e dominação masculina. Isso porque, como aponta Saffioti (2009), o patriarcado funciona quase como uma engrenagem automática. “Ele opera como um pacto entre os homens para o exercício da opressão das mulheres, um regime que se ancora em uma maneira dos homens assegurarem a si e aos seus, meios necessários à produção diária da vida e sua reprodução” (HARTMANN apud SAFFIOTI, 2009, p. 10).
Tornando-se quase automático, não é necessário que a figura masculina esteja presente para que as relações de opressão, exploração-dominação se exerçam em função desta lógica. “Das mulheres, é arrancado o desenvolvimento do uso da razão e do exercício do poder, já que, lhes é atribuído o papel de desenvolver comportamentos dóceis, cordiais, apaziguadores, enquanto os homens são estimulados a desenvolver comportamentos agressivos, perigosos, que representam força e coragem” (SAFFIOTI, 2015, p. 37).
São diversos os campos de subordinação da mulher ao homem, podemos citar os campos político, econômico e familiar. Como afirma Saffioti (1987), no campo político podemos ver quão excluídas estão às mulheres desta esfera, quase nunca ocupando lugares de poder. Em relação ao setor econômico, é fato que a mulher participa muito mais do mercado informal do trabalho, setores que os capitalistas não têm interesse de explorar, pois, não são os mais rentáveis. Sendo atribuída às mulheres a ocupação na esfera reprodutiva, exercendo o trabalho doméstico não remunerado e as diversas formas do trabalho do cuidado, não valorizado e sequer considerado trabalho. Já no meio familiar os exemplos de exploração-dominação do marido, ou pai e padrasto são diversos.
Tais desigualdades, seja elas no campo político, econômico, familiar, entre outros, são fruto da dinâmica social patriarcal na qual estamos inseridas/os. Partindo das concepções feministas dos anos 1970, “o patriarcado pode ser entendido como uma formação social em que os homens detêm o poder, sendo sinônimo de “dominação masculina” ou de opressão das mulheres” (DELPHY, 2009, p. 173). A natureza deste fenômeno é o domínio exercido por homens sobre as mulheres, como afirma Saffioti (2015). Delphy (2009), acrescenta que o termo patriarcado retrata um sistema, não dizendo respeito a relações individuais. Neste sentido, Saffioti (1987) avança dizendo que o patriarcado não se resume a um sistema de dominação modelado pela ideologia machista. Além disso, se configura como um sistema de exploração. A autora afirma que, para efeitos de análise, a dominação pode ser situada essencialmente nos campos político e ideológico, já a exploração diz respeito diretamente ao terreno econômico.
Nos usuais dicionários ingleses, patriarcado se refere a uma forma de organização social na qual o macho é o chefe da família e de sua descendência. Saffioti (2015) descreve que o termo refere-se a uma força institucional que opera sem cessar e abrindo mão de muito rigor, quase automaticamente. “É uma estrutura hierárquica que confere aos homens o direito de dominar as mulheres, independentemente da figura humana singular investida de poder, isto é, pode ser acionado por qualquer um, inclusive por mulheres” (SAFFIOTI, 2015, p. 108).
A palavra “patriarcado” comporta, portanto, triplamente a noção de autoridade e nenhuma noção de filiação biológica, como descreve Delphy (2009), isto porque, a palavra pater em sânscrito, grego ou latim, não designa o pai no sentido contemporâneo, “na língua do Direito aplicava-se a todo homem que não dependia de nenhum outro e que tinha autoridade sobre uma família e um domínio” (FUSTEL DE COULANGES, 1864 apud DELPHY, 2009, p. 174).
A exploração patriarcal é entendida por sua opressão comum, específica e principal das mulheres, primeiro porque atinge a maioria, basicamente todas as mulheres, por isso, comum; específica porque a obrigação de fornecer serviços domésticos é só das mulheres; e principal porque mesmo trabalhando “fora”, o pertencimento de classe derivado é condicionado por sua exploração enquanto mulheres (DELPHY, 2015, p. 116). De acordo com Guillaumin (apud Ferreira et al. 2014, p. 31), o patriarcado diz respeito a uma relação de poder, um ato de força permanente, que se caracteriza pela apropriação da classe das mulheres pela classe dos homens.